Livro de contos. Sinopse: Seria simplório dizer que Eu (no)meio é um livro sobre a pandemia e o ano desagradável que foi 2020, embora esses eventos atravessem, direta ou indiretamente, todos os 12 contos da obra – do prólogo ao epílogo. Trata-se de uma reflexão, uma companhia intimista, ou, apenas, um remédio para um passado recente caótico, que nos apunhalou individual e coletivamente. Com doses de humor e ironia, Eu (no)meio nos faz lembrar que, dentro de casa, há pequenos-gigantes mundos: os vizinhos, as janelas, as aranhas no canto do teto, o noticiário da TV, o home office e – quer coisa maior que essa? – nossas subjetividades enclausuradas. É do cotidiano mais banal e irrelevante da vida em privação que nascem os contos desse livro.

 

Trecho do conto É uma história de amor, não se enganem!

 

          “Eu sempre gostei de ir para a janela. Pode ser um costume estranho neste século em que as pessoas estão mais acostumadas a olhar telas eletrônicas do que o movimento nas ruas, mas eu sempre gostei de observar o que tem lá fora. Se me perguntassem qual é a minha parte favorita da casa, eu certamente diria: a janela. Qualquer uma, de qualquer cômodo, desde que seja uma janela. Na minha casa eu tenho cinco. Isso significa cinco vistas diferentes dos 86 m² que me abrigam, para o mundo. Tem a janela da área, que dá para uma parede lisa do prédio vizinho. Tem a do quarto da minha irmã, cuja vista coincide com a da sala – elas dão para os fundos de um hospital muito famoso e antigo na Tijuca e, por isso, já inspiraram vários trabalhos para o teclado do meu notebook, principalmente nesses últimos meses. Por fim, há as janelas do meu quarto e do quarto dos meus pais. A minha, mais do que a deles, dá de cara para as demais janelas do prédio ao lado. São exatamente 32 janelas que me observam diariamente há mais de 10 anos e para as quais eu também passo os dias retribuindo olhares.

 

Nesses últimos meses, quando a noite vem chegando, eu me acostumei a escancarar a janela do meu quarto, pegar uma cadeira e observar despretensiosamente a vida durante o pôr do sol. Hoje posso dizer que conheço cada vizinho em sua intimidade mais pura e genuína. Sei, por exemplo, que a moradora do quinto andar se exercita pontualmente às 18h. Em seguida, ela coloca uma camisola, liga a televisão e deita na cama, onde fica até adormecer. O adolescente do terceiro piso passa o dia jogando online. Ele usa um headphone e talvez por isso não perceba que grita enquanto conversa com os amigos pela internet: “Não! Seu burro!” (e ele ri escandalosamente). “Atira! Atira!” (e ele continua rindo escandalosamente). “Matei! Uhul!” (adivinha? Ele ri escandalosamente!). Às 18h ele permanece jogando e posso ver como ele gesticula, com os olhos vidrados na tela do computador. Já a menina do primeiro andar estuda muito, passa o dia todo na bancada, atarefada entre seus vários cadernos, folhas e livros. Às 18h, às vezes 18:10, ela recebe uma ligação; vai até a janela; se debruça no parapeito; atende o celular e conversa com brilho nos olhos. Às 18:22 ela desliga, dá um sorrisão para o mundo, uma bisbilhotada rápida na rua e volta para a bancada.

 

Você aí, leitor ou leitora, pode estar pensando que eu sou uma fofoqueira, uma desocupada indiscreta. E talvez eu seja mesmo. Pode até estar com medo de mim, já que eu pareço violar a regra básica de qualquer espaço privado: a privacidade. No entanto, caro público, você permanece tão compenetrado nesta história como eu fico ao olhar através da janela. Talvez eu não seja a única enxerida por aqui...

 

Mas não se engane! Esta ainda é uma história de amor. Ou quase isso.

Eu no meio

SKU: EUNOMEIO
R$ 40,00Preço
  • Nascida e criada no Rio de Janeiro. Professora de História e historiadora, bacharel em Teatro, amante das artes, escritora nas horas vagas. Eu no meio é seu livro de estreia.

  • Livro de contos
    Dimensão: 14x21 cm
    67 páginas.

    * imagem ilustrativa