Sinopse: Um pé misterioso brota do galho de uma árvore. Um ambicioso e polêmico projeto de replantar hortas e pomares sobreo cemitério. O reencontro de um antigo afeto, um orçamento e uma lei que proíbe pássaros. Entre ficções e documentos, “A Crise Imobiliária de Santa Izabel” mergulha na história de absurdos de uma sociedadezinha que, isolada do resto do mundo, cria uma distopia bucólica onde evitar o lá fora é objetivo principal. Cercados de um muro, será que ficaríamos mais seguros ou apenas sem saída?
Leia um trecho do conto:
Capítulo Um
Pé-de-Quê?
De que era aquele pé, ninguém sabia dizer.
Tampouco poderiam imaginar de quem era aquele pé que pendia daquele pé-de-quê? que ninguém sabia que fruta deveria ter nascido ao invés do pé que pendia.
Quem primeiro viu a aberração foi o Padeiro em sua rota de entregas vespertina. Cortava caminho pela horta que também era pomar e que também era cemitério quando viu cair de um galho uma fruta estranha, escura.
Não era um jamelão, pensou ele, que jamelões são tão pequenos e aquela fruta tinha lá seu tamanho médio. Pensou, pensou, pensou, mas não conseguiu buscar da memória nenhuma outra fruta que teria aquela cor escura. Aproximou-se, então, com iguais curiosidade e cautela, apenas o suficiente para reconhecer os contornos de um pé saltando das folhagens.
Pegou-se de súbito supersticioso, fazendo o sinal da cruz com as mãos enquanto avisava aos berros pelas ruas que o fim dos tempos se anunciara.
Pela vila pequena e murada de Santa Izabel, logo se escutaram os berros e se juntaram pessoas, como partículas de metal quando alguém aciona um ímã. Dispuseram-se em um meio-círculo desengonçado em volta da árvore em questão, alguns em pé apontando para o pé que pendia do pé-de-quê?, outros sentados no chão e os mais ousados apoiados em lápides de pedra. Os adultos seguravam firme suas crianças que rapidamente encontraram um grande galho com o qual planejavam cutucar o pé que pendia do pé-de-quê? assim que percebessem uma brecha da vigia de seus tutores.
Lado a lado com os inúmeros irrelevantes indivíduos presentes, destacavam-se algumas figuras importantes para a cidade - importantes, especialmente, pois foram peça central no Grande Replanteio de 2033.
A Crise Imobiliária de Santa Izabel
Gaê é multiartista, polímata ou talvez só ansioso. Entre teatro e música dedicou-se à direção, composição e dramaturgia, além da performance, e agora à literatura - sempre agitado e inquieto entre um projeto e o próximo. É produtor cultural com a noite de música autoral LGBT “Nossa Terra Tem Janelas” e pesquisa Comunicação e Saúde. Foi roteirista do documentário “Carta Para Além dos Muros”, disponível na Netflix, e de vez em quando posta umas receitas no Instagram. Reclama do calor, mas não abre mão de dormir agarradinho. É brasiliense, mas não de nascença (e prefere não discutir o assunto). Pode ser encontrado nas redes sociais, nas plataformas de streaming e entre algumas linhas desse livro.
Livro de contos
Dimensão: 14x21 cm
112 páginas.* imagem ilustrativa